Femea beta dança
Fêmea Beta

A Linda Dança dos Estranhos

A Linda Dança dos Estranhos

Um dos meus desafios nos últimos anos, e acho que um dos mais difíceis, é não julgar. Um olhar, um segundo, um minuto, não são suficientes para que compreendamos como uma vida chegou àquilo que está diante de nossos olhos. Dia desses percebi que ainda tenho um bom caminho para percorrer…

Depois de quase me render aos encantos da minha cama no domingo chuvoso, ressurgi das trevas, digo, dos lençois, tomei um banho e venci a batalha contra a preguiça. Peguei minha amiga em casa e fomos assistir ao espetáculo anual de uma escola de dança, oportunidade cultural gratuita que ocorreu em um teatro no centro da cidade. A maioria das coreografias foi média e grande parte do espetáculo não me agradou. A sincronia passou um pouco longe daquele palco. Bem feito pra mim! Vocês já vão entender por que.

A primeira apresentação chamou atenção devido a um menininho de uns seis ou sete anos. Franzi minhas sombrancelhas e me perguntei “Que raios aquele menino faz ali?”

Na terceira música, adentrou o palco uma senhora de seus setenta anos vestida de cigana. Atrás dela vinha outra que devia ser da mesma década seguida de mais uma, e outra e mais outra. Em minutos as ciganas balançavam saias de cores vibrantes e chacoalhavam moedas. Sem muita harmonia, mas com a toda a simpatia que um grupo de vovós dançantes poderia ter, arrancaram sorrisos dos espectadores e eu pensei “Que demais! Imagina convidar os amigos para ver a apresentação de dança da avó!”.

Próximo ato: a bailarina que inicia e termina a coreografia não era magrinha, de rosto angelical e não tinha pernas alongadas. O que ela tinha era muita coordenação e Síndrome de Down. Não preciso dizer que ela deu um “up” na plateia. Pensei: “Sensacional!” E conclui que se alguém tinha problemas naquele teatro, eu era um desses.

A partir daquele momento comecei a ter vergonha, e não era alheia. Era muito minha!

Vi a dança contemporânea sincronizada e atrativa das magrinhas, aquela “coreô” que a gente espera, com várias gatinhas no palco, roupas coladas e blá blá blá. Mas no evoluir de figurinos, luzes e passos ensaiados vi dançar a negra bunduda, a branquela magrona, a quarentona, a grandona desengonçada, o cinquentão do sambinha, a deficiente e o cabeludo do sapateado. E isso, isso sim, foi o que fez daquela apresentação um grande espetáculo!

Não demorou muito para que eu admirasse a escola pela sua atitude e, mais ainda, aqueles bailarinos “diferentes” (que só são diferentes por que são poucos ali) que subiram no palco, dançaram e me fizeram perceber o quanto ainda estou contaminada com os (malditos) padrões impostos pela sociedade. Ao final, todos os bailarinos estavam reunidos no palco e uma das alunas, após seu discurso de agradecimento, disse algo parecido com o seguinte: “nós não fazemos o que os outros querem ver, nós fazemos o que nos dá vontade”.

Com aquele fechamento, bati palmas a eles e voltei pra casa. Voltei para pensar e tentar me curar. Me curar da vergonha pelos meus pensamentos, de inveja por não dançar e não ter a coragem que todos aqueles “estranhos” me mostraram.

 

Veja os artigos publicados por Fêmea Beta clicando em Fêmea Beta.


Fêmea Beta 2
Sou a “Fêmea Beta“, então. Brasileira, 32, leonina, Doutora. Doutora com doutorado de quem leu, pesquisou, fez dissertação, tese e seminários. Fui professora e dei aula para universitários, para profissionais, para policiais e para presidiários. Gosto de praia, de música eletrônica, de conhecer gente nova, de gente bonita (independente do cariótipo), de aprender, de sabonetes e de comidas amarelas.

Tenho bom gosto mas não tenho grana suficiente. Tenho sonhos e energia para realizá-los. Tenho família, amigos, conhecidos e amor sobrando. Saiba mais sobre a Fêmea Beta clicando aqui.